mata-dor

Um dia sonhei que estava nua num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma forma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim.
Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?

Coprodução_ ASTA e TeatrUBI
Criação e direção_ Rui Pires
Texto_ de Rui Pires a partir de “A Casa do Incesto” de Anaïs Nin
Design gráfico_ Sérgio Novo
Desenho de luz_ Pedro Fonseca e Rui Pires
Assistência técnica_ Fábio Silva
Edição de som_ Paulo Lima
Voz-off_ Carmo Teixeira
Guarda-roupa_ Sérgio Novo
Cocriação e interpretação_ Diana Portela, Gonçalo de Morais e Joanna Santos
Agradecimentos_ André Costa, Fausta Parracho e Rita Carrilho